Especial Mundial: Sírio no topo do mundo

Ginásio do Ibirapuera lotado! Uma dúzia de intercontinentais depois da estreia do Corinthians em 1966, o Brasil finalmente conseguiu alcançar o topo do mundo do basquete de clubes. O feito é de um time da capital paulista: o Esporte Clube Sírio.

Fundado por imigrantes sírios e libaneses em 17 de julho de 1917, com o nome de Sport Club Syrio, o clube seguia outras colônias fixadas em São Paulo (como o Germânia, atual Pinheiros, fundado por alemães e o Palestra Itália, pela enorme colônia italiana) e criava ali um espaço de lazer e esporte. Mal sabiam seus fundadores que o clube atingiria um marco até hoje não alcançado por outra agremiação brasileira: o título de Campeão do Mundo de basquete.

O Sírio, como outros clubes de São Paulo, já nasceu se lançando ao futebol, uma modalidade ainda jovem no país. Com o crescente número de associados, as sedes sociais foram mudando, até que na década de 1950 o Parque São Jorge (hoje propriedade do Corinthians) foi deixada para trás para a construção de uma sede própria, na Avenida Indianópolis,  grande o suficiente para receber todos os sócios.

O começo das glórias

Foi também na década de 1950 que o Sírio começou a ganhar destaque no cenário do basquete nacional, com a conquista do Campeonato Paulista de 1959. Na década seguinte veio a primeira conquista internacional: a Copa dos Campeões Sul-Americanos em 1961. A década foi de troféus para o basquete sírio, com a conquista de mais dois estaduais, uma Taça Brasil e mais um Sul-Americano, alcançando a inédita classificação para o Intercontinental de 1969.

O time ficou em terceiro na disputa, caindo nas semifinais para o Akron Wingfoots, que foi o grande campeão. Em 1970 e 1971 o time conquistou mais dois Sul-Americanos e em 1973, com a repetição do título e o retorno do torneio intercontinental, o Sírio voltou a ter a chance de levantar o mundo.

A torcida lotou o Ginásio do Ibirapuera no primeiro mundial realizado em São Paulo, mas o título bateu no aro. A vitória no último jogo contra o time italiano do Ignis Varese não foi o suficiente, mas era o prenúncio de que o clube chegaria lá.

É hora do show

Em 1978, o time levantou o Sul-Americano mais uma vez, chegando a seu terceiro mundial, novamente em São Paulo. Com o comando de Cláudio Mortari, o time de Oscar, Marcel, Eduardo Agra, Dódi, Paulinho, entre outros craques, fez São Paulo parar.

O ano de 1979 foi de transformações no Brasil e no Mundo. O poder brasileiro passou para seu último general, João Figueiredo. A Lei da Anistia foi assinada, permitindo a volta dos exilados da ditadura e mais um estado brasileiro estava formado: o Mato Grosso do Sul.

Enquanto Estados Unidos e China chegavam a um acordo de relações diplomáticas, um aparelho criado no Japão mudaria por completo o modo que escutamos música: o Walkman. Nele, você poderia ouvir os sucessos do momento quantas vezes quisesse dentro do seu bolso. Era The Wall, Heart of Glass, Tim Maia…

Ao Ibirapuera!

Acervo do Estadão

Acervo do Estadão

Ao basquete novamente. A Copa Intercontinental de 1979 começou exatamente no dia 2 de outubro, com o confronto entre os americanos do Mo-Kan NCAA Stars e os iugoslavos do KK Bosna, decidido apenas na prorrogação: 114 x 111 para a equipe da antiga Iugoslávia. Logo depois foi a hora da estreia do Sírio, vitoriosa, por 114 x 81 contra o Piratas de Quebradillas, de Porto Rico.

A segunda rodada, no dia seguinte, marcou o encontro entre Sírio e Mo-Kan. O time americano foi melhor e ganhou a partida por 98 a 91, impondo aquela que foi a única derrota do time da capital paulista. No outro jogo, o Emerson Varese derrotou o Piratas de Quebradillas por 78 a 73.

Na terceira rodada, o Sírio folgou, enquanto o KK Bosna derrotou Emerson por 109 a 90 e o Piratas passou pelo Mo-Kan num jogo apertado: 96 a 95. Naquele instante, o KK Bosna tinha duas vitórias e nenhuma derrota. O Mo-Kan tinha uma vitória e dois jogos perdidos. Sírio, Piratas e Emerson estavam com uma derrota e uma vitória cada.

Depois da folga, o Sírio voltou no quarto dia de competições e passou, de forma apertada, pelo Emerson Varese, por 83 a 79, conseguindo assim a chance de lutar pelo título no domingo, contra o KK Bosna. O time dos Bálcãs venceu o Piratas por 84 a 83, em outra partida emocionante.

Quis o destino que Sírio e o KK Bosna chegassem ao domingo, último dia do torneio, para disputar uma grande final. Os jornais da época destacavam muito mais o basquete que nos dias de hoje, inclusive ressaltando a quantidade enorme de público que foi ao Ibirapuera acompanhar a semana da Copa Intercontinental.

Então naquele domingo, 6 de outubro, o ginásio mais uma vez lotou. Segundo matéria da época escrita pelo jornalista Luiz Carlos Ramos, do Estado de S. Paulo, as torcidas de futebol deixaram a rivalidade de lado e se juntaram para acompanhar a Copa Intercontinental. “Então surgiriam nos ginásios os alegres grupos com nomes como Cori-Sírio, Trico-Sírio, Periquito-Sírio, Baleia-Sírio […]. Inclusive universitários criaram torcidas, “Mackenzie-Sírio, Med-Sírio, Objetivo-Sírio, Pauli-Sírio, Poli-Sírio e assim por diante. E muita gente despertaria para as emoções do basquete e entenderia porque esse esporte é tão popular em outros países”.

Acervo do Estadão

Acervo do Estadão

Na preliminar, o Emerson passou pelo Mo-Kan, por 80 a 75, conquistando o bronze. O evento principal da noite começou às 20h30. Enquanto Oscar e Marcel puxavam a pontuação da equipe síria, o pivô Ratko Radovanovic e o craque Delibasic conseguiam deixar o time iugoslavo na vantagem. Com isso, o time “visitante” ganhou o primeiro tempo por 39 a 35.

A escalada para chegar ao topo do mundo ao foi fácil. No segundo tempo do jogo, o Sírio impôs sua força e ao lado da torcida ganhou o segundo tempo, levando o jogo para o tempo extra: 88 a 88. Se o basquete já é um esporte emocionante, imaginem uma decisão de mundial com prorrogação!

E coube a Marcel a honra de fechar a pontuação brasileira. Ele pegou a bola perto da lateral direita, correu para o meio. A marcação iugoslava se fechou, mas com brilhantismo e uma largadinha, a bola balançou a redinha! 100 a 96. Os iugoslavos ainda acertaram uma cesta, mas o grito de campeão já estava na garganta do torcedor e dos narradores. Fim de jogo: 100 x 98.

A voz eternizada de Luiz Noriega na TV Cultura dizia “[…] convertendo dois mais para a equipe da Iugoslávia. Dois segundos… Termina! Sírio, Campeão Mundial de basquetebol!”. Silvio Luiz, na TV Record, soltou “Sírio campeão! Carnaval no Ibirapuera!”.

Oscar terminou com incríveis 42 pontos (ele ainda foi o cestinha geral do torneio com 138 pontos). Marcel e Marquinhos deixaram 22 pontos cada e o basquete brasileiro finalmente chegou ao topo do mundo entre os clubes. O feito do Sírio não foi importante apenas dentro da quadra. Nas arquibancadas, corinthianos, palmeirenses, são-paulinos e santistas se juntaram em algo provável apenas durante a Copa do Mundo. Dessa vez, o esporte era outro, era o da cesta, da bola laranja, da quadra e do chuá.

Acervo do Estadão

Acervo do Estadão

E que emoções!

Exatos 34 anos depois, um clube brasileiro pode levantar o mundo mais uma vez. E o jogo decisivo será num 6 de outubro. No banco, o time brasileiro novamente terá Cláudio Mortari. Mas os paralelos ficam para o próximo texto…

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