Especial Mundial: A trajetória de Mortari

Dos vários elementos que compõem a carreira das pessoas, um dos mais importantes é a vocação. Alguns descobrem a tal vocação por acaso. Outros já têm certeza do que querem, ou então demoram anos e anos para entender suas qualidades para determinadas profissões e tarefas.

Com Cláudio Mortari, a vocação foi descoberta durante um simples jogo escolar de basquete. Foi na Escola Estadual Zuleika de Barros Martins Ferreira, na Pompéia, pertinho da Barra Funda. Mortari, com seus 20 anos de idade, estava lá para assistir. Mas quis o acaso que o treinador da equipe da escola se ausentasse, e o chamassem para ser o substituto. Alguns diretores do Palmeiras estavam presentes e viram Cláudio na função de técnico, e como ele conduziu a equipe à vitória. Começava ali uma das carreiras mais duradouras do basquete brasileiro.

Ao longo dos nossos textos, já contamos grande parte da história do multicampeão Cláudio Mortari, mas nunca é demais fazer um flashback. Afinal, dentre todas aquelas semelhanças entre o Sírio (único campeão mundial) e o Pinheiros (representante brasileiro na próxima competição), o comando técnico é justamente um dos mais notórios.

Filho da enorme colônia italiana que se fixou na cidade de São Paulo, Mortari é até hoje o único técnico brasileiro a vencer a Copa Intercontinental, com o Sírio, em 1979. Ele nasceu na capital paulista e durante sua infância morou na Rua Turiaçu, região oeste. A rua é lateral de uma das principais sociedades esportivas brasileiras: o Palmeiras. E foi aos oitos anos que o pequeno Cláudio ganhou de seu avô um título do clube – o destino do basquete brasileiro estava escrito.

Mortari (Arquivo Pessoal - Gazeta Esportiva)

Mortari na base palmeirense (Arquivo Pessoal – Gazeta Esportiva)

Já nos seus primeiros dias de clube, Mortari começou a jogar basquete no verdão. A intimidade com a bola laranja o fez passar por todas as categorias de base como jogador, até finalmente chegar ao time adulto do Palmeiras.

O ala/armador, porém, teve uma carreira curta. Aos 25 anos de idade, deixou a vida que tinha dentro da quadra para ficar no entorno dela. Era a vocação, aquela, descoberta no simples jogo escolar, que estava falando mais alto: de jogador, Cláudio passou a ser técnico. De 1969 a 1977, ele defendeu o alvi-verde e ganhou seis prêmios de melhor técnico das categorias de base. De quebra, ganhou também uma grande chance: em 1977, assumiu a equipe adulta do Palmeiras.

Mas a vida naqueles tempos não era feita só da sua vocação descoberta. O novo técnico tinha que se redobrar para conseguir comandar o time, trabalhar e ainda estudar no Mackenzie. Tudo mesmo tempo. Mesmo assim, Mortari foi o único técnico que jogou e treinou todas as categorias, da base ao adulto, no que podemos perguntar como ele conseguiu fazer isso…

Logo no ano de estreia de Mortari como técnico da equipe principal, o Palmeiras conquistou o Campeonato Brasileiro. Na temporada toda, o time perdeu apenas cinco partidas e o jovem técnico já despontava no cenário nacional. Fora este o último título do verdão no basquete.

Em 1978, Mortari trocou a Rua Turiaçu pela Avenida Indianópolis, saindo do Palmeiras para o Sírio. Foi nesse clube que o técnico alcançou suas maiores glórias, sendo simplesmente campeão de tudo: paulista, brasileiro, sul-americano e mundial em 1979.

Sírio (Arquivo Pessoal)

Já como treinador do Sírio (Arquivo Pessoal)

No Sírio, foram quase 600 partidas em duas passagens. Na primeira, de 1978 a 1985, Mortari conquistou três brasileiros, dois paulistas, três sul-americanos, além do mundial. Em um movimento natural, ele foi chamado para ser técnico da seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou.

O Brasil fez uma boa campanha, ficando em quinto lugar, caindo na segunda fase após perder por um ponto para a Iugoslávia: 95 x 96 (longe de ser uma vingança pela vitória do Sírio sobre o KK Bosna). Se o Brasil tivesse vencido, teria a chance de disputar uma medalha. Mortari deixou o Sírio e passou pelo Bradesco, em 1985, antes de chegar ao Corinthians, onde ganhou o estadual e ficou lá até 1987. Em 1988, Cláudio assumiu o time do Pirelli e foi vice no Campeonato Paulista de 1989.

Durante a década, Mortari chegou a fazer um curso de técnico de futebol e a convite de Marco Polo Del Nero, hoje presidente da Federação Paulista de Futebol. Quase ingressou no São Paulo. Quase. Mas parece que a vocação para ser técnico da bola laranja continuou falando mais alto, a despeito da popularidade e atração proporcionada pelo futebol.

Após seu segundo período no Sírio, entre 1991 e 1992, os títulos voltaram em 1994, quando Mortari levou o excelente time de Rio Claro, que tinha Josuel e Paulinho Villas Boas, ao título paulista e, mais tarde, para a conquista do Campeonato Brasileiro – até agora, seu último troféu nacional. Em 1998, foi a vez de levar o Barueri de Oscar ao título paulista com uma bola do meio da quadra do mesmo Paulinho Villas Boas, desta vez sobre o Mogi das Cruzes.

Mortari trocou de ares em 1999, mudando-se para o Rio de Janeiro para assumir o Flamengo. Ali ele encontrou um velho conhecido, o técnico Hélio Rubens, que então dirigia o Vasco da Gama, protagonizando nas quadras a tão famosa rivalidade entre os cariocas. Ambos os técnicos afirmam que já se enfrentaram mais de 100 vezes!

Em 2005, Mortari voltou a São Paulo para ser diretor técnico do Paulistano. Dois anos depois e ele finalmente chegava ao Pinheiros. Mortari desembarcou no clube para ser técnico e depois passou a ser diretor, como no Paulistano. Mas a vocação não estava longe do banco de reservas e ele retornou ao comando técnico da equipe no NBB 3 (2010/11), levando o time até as semifinais, quando caiu diante do Brasília, que mais tarde seria campeão.

No comando pinheirense (Divulgação)

No comando pinheirense (Divulgação)

A classificação para a semifinal do NBB 4, com a melhor defesa do campeonato, rendeu ao Pinheiros uma vaga na Liga Sul-Americana do ano seguinte. O torneio da América do Sul também era um classificatório para a Liga das Américas. Mortari mais uma vez encontrava um velho conhecido: o torneio de clubes das Américas, o mesmo que ele conquistara três vezes com o Sírio.

No grande Final Four, uma vitória contra o Capitanes de Arecibo e um contundente triunfo contra o Lanús fizeram o Pinheiros chegar ao lugar mais alto das Américas. Lá estava Mortari, 29 anos depois de ganhar o Sul-Americano pela última vez com o Sírio. Lá estava o jovem treinador improvisado, da Escola Zuleika de Barros. Lá estava aquele técnico chegando a mais um mundial.

No passado, ele foi contestado por ser novo demais para o cargo de técnico da seleção. Hoje ele é contestado pela idade. Não importa. Mortari soube se moldar com o tempo, ganhando títulos e entendendo as mudanças do basquete. Não é a toa que 34 anos depois ele pode ser bicampeão do mundo, com um basquete totalmente diferente daquele jogando em 1979.

Esta é uma pequena homenagem da Torcida Pinheirense a um dos maiores técnicos da história do basquete brasileiro, o primeiro e único a comandar 2000 jogos. Força, Mortari!

ESTATÍSTICAS

CLUBES Jogos Vitórias Derrotas Aproveitamento
S.E Palmeiras 36 31 5 86%
E.C Sírio 594 449 145 76%
Corinthians 165 118 47 72%
C.A Pirelli 238 188 50 79%
Telesp Clube 31 15 16 48%
CESP/Blue Life Rio Claro 69 55 14 80%
Report/Valtra Mogi das Cruzes 251 174 77 69%
Mackenzie/Microcamp/Barueri 87 71 16 82%
C.R Flamengo 125 84 41 67%
Automovel Clube de Campos 55 37 18 67%
Ulbra São Bernardo 43 35 8 81%
E.C Pinheiros 299 186 113 62%
TOTAL 2004 1447 557 72%

CONQUISTAS

Seleção Brasileira

Olimpíada de Moscou – 1980  

5º lugar

3 títulos Sul-Americanos – Categoria Juvenil

1 Título Panamericano – Categoria Juvenil

2 Títulos Governo do Estado – Profissional Adulto

Equipes

Mundial

1979 – E.C Sírio

Liga das Américas

2013 – E.C Pinheiros

Sulamericano de Clubes

1978/1979/1984 – E.C Sírio

Campeonato Brasileiro

1977 – S.E Palmeiras

1978/1979/1983 – E.C Sírio

1995 – CESP/Blue Life Rio Claro

Estaduais

1977 – S.E Palmeiras,

1978/1979 – E.C Sírio

1985 – Corinthians

1994 – CESP Blue Life Rio Claro

1996 – Report Mogi das Cruzes

1998 – Mackenzie Microcamp Barueri

1999 – C.R Flamengo

2011 – E.C Pinheiros

PRÊMIOS

Melhor Técnico do ano FPB

1971 – Categoria Mirim

1972 – Categoria Infantil

1973 – Categoria Juvenil

1974 – Categoria Infantil

1975 – Categoria Juvenil

1976 – Categoria Juvenil

1978 – Profissional Adulto

1979 – Profissional Adulto

1989 – Profissional Adulto

1996 – Profissional Adulto

2012 – Profissional Adulto

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